Por quê não ter um blog

Este blog sempre foi uma "gaveta on line" - um lugar para publicar poemas meus que não estão em livro ou CD, aqueles que podiam sair sem muito susto da "gaveta real". Acontece que eu esqueço por meses que este "lugar" existe, então ele fica entregue às teias de aranhas virtuais. Aliás, essa era a idéia desde o princípio, contrariar a lógica do blog que se renova com estreita periodicidade, que sempre tem um pão quentinho, mesmo que se tenha que recorrer ao embromatio. Era um protesto contra a lógica do nosso tempo, em que todos nós anões ficamos alimentando esse gigante com as nossas migalhinhas.

Ah, esses poetas (poesia era um troço que tinha até o século XX). Sempre gostei das coisas que são longamente gestadas (existe essa palavra?) e da criação que não é remetida às pessoas, mas à morte. Aquilo do cara olhando pra própria caveira, e tal ("qual é mesmo a questão?") E por outro lado, acho um saco essa primeira pessoa do blog pessoal. "Ontem fiz cocô pensando no meu amor que está longe", etc. Essa tentativa frustrada de ser um indivíduo. No fim, um pensamentosinho esperto para arrematar, com alguma sorte.

Isso já está ficando longo para um post. Bom, a questão é que eu vi que minha atitude era algo patética: no fim das contas estava levando a "questão blog" mais a sério do que qualquer pessoa que tenha um blog normal. Todo mundo faz como um editor me ensinava: "escreve, limpa a bunda e vai embora". Por outro lado, vi que meu amigo Chuí estava fazendo uma coisa interessante com seu blog: expondo seu processo de criação artística para quem se interessa por seu trabalho, e não só as pessoas vêm participando, como ele vem sendo muito paparicado em seu blog! Então pensei: vamos à luta! Também quero ser paparicado. Afinal, um blog como um poema como uma canção é sempre um pedido de socorro, disfarçado em sedução... Mas não sei mais como seduzir... nem tenho nada novo que preste... Socorro!!!

Todo esse blá-blá-blá só pra deixar vocês com um poema, da série "por quê não escrever poesia". Quer dizer, é um poema pra ser falado, não propriamente escrito, só o transcrevo aqui porque estou bêbado. Estou "trabalhando" nesta série de poemas falados, então vamos ver como a publicação interfere em sua criação:

O HOMEM É O ÓRGÃO DE CÓPULA DA MÁQUINA COM A MULHER E ASSIM PARIMOS APARELHINHOS ATÉ A HORA DE NOSSA MORTE AMÉM O HOMEM É O ÓRGÃO DE CÓPULA DA MÁQUINA COM A MULHER E ASSIM PARIMOS APARELHINHOS ATÉ A HORA DE NOSSA MORTE AMÉM O HOMEM É O ÓRGÃO DE CÓPULA DA MÁQUINA COM A MULHER E ASSIM PARIMOS APARELHINHOS ATÉ A HORA DE NOSSA MORTE AMÉM O HOMEM

P.S. com sabor de rádio na madrugada: Esse post indelicado é dedicado à minha amiga Cibele, de Arapongas-PR, que não gosta de poesia mas é a única que reclama que não coloco nada novo nesse blog, e se emaranha nestas teias de aranha.

 

Eu-policial. O cadáver embalado no carro, deixado ali na sexta para ser entregue ao IML na segunda. A lembrança no fim-de-semana, o temor do fedor. A visão do relógio, pouco faltando para meio-dia e cinco. Horário do meu nascimento.
1. A palavra errada insiste em si, comigo. 2. O livro que, aproximado dos ramos esquerdos da macieira, ilumina-os. 7. No fundo de uma loja de discos usados, procuro algo, entre sacolas vazias, dvds e vinis. Alguém comenta os grandes gastos que se tem numa noite de verão.

Nojo

 

Nós não deveríamos ter tempo para o tempo do Nojo

 

Nós deixaríamos as migalhas meditarem até se tornarem estiletes

 

Nós dançaríamos “Cuando Calienta El Sol”

 

com moedas de merda na juke box alquímica

 

Nós assobiaríamos o espírito da música esférica

 

assombrando o banho-maria do apocalipse

 

Nós refundaríamos o mundo com um bailado de perdigotos

 

fertilizando o não-ser

 

Nós os torturados nós os esquartejados nós os enterrados vivos

 

brotaremos como ipês de algum estrume deslumbrante

 

Nós constelações de pedra e carne a voracidade geradora

 

Nós a árvore de nenhum paraíso

 

NÓS A ÁRVORE DE NENHUM PARAÍSO

 

Nós tomaremos o poder dos nossos corpos

 

NÓS TOMAREMOS O PODER DOS NOSSOS CORPOS

o sétimo ciclo

 

quando a mente se apenumbra a três mil pés de altitude --- castelo-tempestade plumbifurirrosa --- Noite dá à lucífera Cidade cidades: Escárnio Miséria e Agonia, e adiante Esquizo Gozorra e Anticlímax, e então --- dedo-trovão cofiando pentelhuvens e o supremo clitóris trevoso --- ah ereção desesperada fecundando todos os mitos (Adão, Maternidade, O Mundo Utilizável, o Gerente de Marketing, Marylin, Dioniso etc.) suarentos no climatério global --- de olho nas frestas na camada de ozônio, em busca do ovnigraal perdido

juntadas todas as partes, prova-se por cansaço o teorema do absurdo – esse ajuntamento de continentes onde sob cada lâmpada para cada novo dia um deslumbrante trambique é parafusado com o “agora vai” – as omoplatas gastas na augusta madrugada, roçando muros e postes, e o comichão à guisa de asas – as idéias remeladas pela manhã – já não espanta a continuidade desta piada? e sempre esta aurora dediplúmbea com pilhas de louças encardidas repelindo os anjos e a dita “energia do dinheiro”!

Há o momento (perverso polimorfo) em que o caiçara puxa a camiseta um pouco para cima e descobre sua barriga, para receber o vento atlântico e sondar o ambiente. Ele esfrega a palma da mão esquerda no ventre, sorri e percebe que há um tubo ligando a lua ao seu umbigo. Então ele pode reger as nuvens e colher um ou dois cajus luminosos de galáxias distantes. É o momento profetizado por Nossa Senhora dos Prazeres, que tem aquele rosto deleitoso de quem tomou um talagadinha de boa cachaça, e saúda quem chega à cidade com uma mão apontando o céu, e a outra, a terra.

divindade vigarista

teu nome se pronuncia

com os cílios

 

Tenho muitos olhos, mas apenas duas mãos e uma barriga

 

Bebê amamentado pela catástrofe

 

Sou este automóvel que vaga pela grande rua em busca de poemas, negócios, cachoeiras e michês

lapa de baixo

feia que dói

coitada

 

sob chuva miúda

cachorro dorme na porta do boteco

com o focinho entre as patas

 

passante franze a testa

imaginando ao atravessar a rua

um muxoxo no rosto do enforcado

 

a luz branca

a tudo corrói

O homem veio ter com a madrugada à janela do apartamento.

 

Os lá-foras. Sondar o imenso.

 

Ele come algo que traz à boca com freqüência frenética.

 

Pulsões violetas emolduram-no,

 

Imagino que saiam de seu ânus, ou do de outrem.

 

Olha um caco de lua, leva a mão à boca, parece um símio.

 

De fato. Um símio. O poema de um símio, seus altos cantares.

 

A escuridão recebe seu cuspe, ele fecha a janela.

como surfar com mais que dois pés. como jogar capoeira sozinho. joshu morou solitário durante quarenta anos num casebre, tendo como amigos macacos e veados, e alimentando-se apenas de nozes; correu o japão a fama de sua sabedoria; vários mosteiros foram construídos ao redor de seu casebre, e mil e quinhentos monges se juntaram para receber seus ensinamentos. "como são preguiçosos", Joshu pensou. como surfar com mais que dois pés. como jogar capoeira sozinho.

adoeço de certas palavras. certos nomes

me puxam pelas pernas e

me estapeiam doutoralmente.

 

anoiteço em certas impressões. incertezas

vorazes, pornografia da medula,

vomita-se poeira.

 

agulha e libélula. desvão

e chico. galeria e capela.

 

todo um céu entre-imaginado/entrevisto

através do limo e das águas turvas.

Os telhados do fim da tarde com cheiro de café,

algo para amar enquanto o tempo não baba em minha mente.

 

Digo: enquanto a memória e o tempo, seu amante,

se suicidam com o veneno do meu amor.

Corra de olhos fechados como um filho da puta

nesta praia deserta

porque tudo se desintegra às suas costas

e você sabe,

dentro de instantes do Departamento do Patrimônio Histórico da sua mente selecionará     

                os rostos, paisagens e sensações que deverão ser tombados a qualquer custo,

a mão do carrasco tem um carimbo onde se lê: “sublime”;

 

corra de olhos fechados e grite se possível como um filho da puta,

e pule nesta brecha sem abrir os olhos nem parar de gritar,

uma coluna de ar que sustenta um espaço vazio,

ou isto

ou um lento suicídio.

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