Somada a outros instrumentos de tortura,

a poesia tem sua eficiência –

De uma luxúria eclode outra solidão maior,

Mais completa, hermafrodita.

 

Dissoluta, prenhe, portadora de carnavais:

A mão que me escava.

Assim me falta na noite o ar,

Porque há sempre uma mais fina camada de oxigênio

Na maior escuridão, e vacilo, pendendo de um fiapo de luz.

 

Que mago poderia dissolver-se dos panos e pedras dos dias

Para colher as frutas da neblina

E refazer-se num poema límpido como um automóvel de anúncio?

 

Não para mim, não hoje.

 

Hoje tivemos visitas que falaram de apartamentos, eletrodomésticos e recordações de infância.

 

Não para mim, não hoje.

 

E o velho ônibus de sete rodas não cabe mais na estrada e vai se transformando no mais alto edifício: e todos fogem desta solidão feita de ardor

 

Mas há sempre um voluntário para as tarefas mais estúpidas

Para atingir a graça (hmm...)

e ganhar em estilo

é preciso pedir licença aos urubus

guardiães desta pousada construída sobre os rochedos

no fim da praia.

E considerar a relevância

de a dona do lugar ser espírita

e ouvir forró bem alto à noite

e berrar quando a bebedeira iniciada ao poente

entra em declínio e inevitavelmente

falha.

 

Para atingir a graça (ah)

e ganhar em estilo

fazer amor com as portas abertas para o terraço

(vocês estão no melhor quarto porque são os únicos hóspedes)

com certa violência recebendo a brisa

com cheiro de peixe e passos

dos tais urubus no telhado.

 

Para atingir a graça ( )

e ganhar em estilo

o domingo escorre

por trás dos barcos que balançam como autistas na enseada

aí mandar uns dois ou três sujeitos tomarem no cu

numa pequena série de interurbanos;

envolver-se na escuridão

(e no silêncio, se a dona da pousada o permitir)

e imaginar

por quê pelos demônios

alguém inventou que o nascer do sol

se chamará segunda-feira.


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